Um fim-de-semana romântico em Amarante, Portugal

Um fim-de-semana romântico em Amarante, Portugal

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O dia amanheceu, o despertador tocou às 9h. Boa hora para levantar o rabiosque da cama, melhor hora para se virarmos para o lado e fazer conchinha. É só mais 5 minutos. Prometo a mim mesma que dentro em breve, vou sair de casa para comprar o pequeno-almoço romântico que havia idealizado muito antes de aqui chegarmos.

Um fim-de-semana romântico em Amarante, Portugal

Mimo House, Amarante

A Mimo House tem a localização ideal para andar a pé pelo centro histórico de Amarante e ao fim de meia hora lá ganho coragem e cumpro o que havia prometido. O Valter ainda dorme que nem uma pedra. Bato a porta, da forma mais silenciosa que consigo, e saio com destino à Confeitaria da Ponte, mas é um pouco mais abaixo, na pastelaria O Moinho Centro Histórico, que encontro o que procurava, os famosos colhõezinhos de São Gonçalo, um doce muito típico de Amarante com um formato fálico. Pelo caminho compro mais alguns doces conventuais, bolos, pães de leite, cerejas e sumos. Tudo o que dois gulosos como nós querem numa primeira refeição do dia.

Colhõezinhos de São Gonçalo

Colhõezinhos de São Gonçalo

Queria ser o mais rápida possível para regressar e preparar o nosso pequeno-almoço. Mas não foi fácil. Era Domingo e decorria a Feira à Moda Antiga e apesar de ainda não irmos a meio do dia as ruas já estavam cheias de vida, de pessoas, de grupos a cantar músicas tradicionais e aglomerados de amarantinos que se juntavam para cantar e dançar ao som de músicas que lhes eram tão familiares como a recordação do seu passado.

Um fim-de-semana romântico em Amarante, Portugal

Feira à Moda Antiga, Amarante

Já de regresso, com o olfacto adocicado pelo cheiro do que levava no saco, paro para apreciar o ambiente festivo que se vive à minha volta. E, embora estivesse desejosa para colocar a mesa na nossa varanda e acordar o Valter paro e contemplo, mais uma vez, o Rio Tâmega e os barcos de passeio que estão atracados na sua margem. E penso no quanto quero terminar o dia a percorrer o rio, pedalando um desses barcos. Ainda dou mais uns passos extra e paro à porta do Museu Municipal  Amadeo de Souza-Cardoso, o génio pintor português, natural do concelho de Amarante. E penso no quanto quero ver ao vivo algumas das pinturas do ícone do modernismo em Portugal.

Depois regresso a casa, entusiasmada com o leque de possibilidades para este belo dia nesta maravilhosa e verdejante cidade. Regresso tão rápido quanto as minhas curtas pernas me permitem.

Um fim-de-semana romântico em Amarante, Portugal

Mimo House, Amarante

O Valter ainda dorme e eu decido acordá-lo com beijinhos. Depois conto-lhe os nossos planos para hoje. Digo-lhe que também quero petiscar e provar o vinho verde tinto alvarinho num dos restaurantes representados na feira, numa daquelas mesas com vista para o rio, onde ontem à noite já não arranjámos mesa livre.

Somos feitos de sonhos efémeros. E, por uns momentos, sonhamos viver em Amarante e ter uma casa exatamente igual à Mimo House.

Um fim-de-semana romântico em Amarante, Portugal

Feira à Moda Antiga, Amarante

Um fim-de-semana romântico em Amarante, Portugal

Feira à Moda Antiga, Amarante

Amor com amor se paga. E se eu comecei o dia a levantar-me mais cedo para surpreender o Valter e acordá-lo com o pequeno-almoço já preparado na varanda da “nossa” Mimo House, o coitado do Valter acabou por pagar a triplicar.

Batiam as cinco da tarde. E, tal como havia imaginado, arranjámos uma mesa com vista para o rio na Feira à Moda Antiga. Se a conversa já era boa o vinho verde tinto alvarinho tornava tudo ainda melhor. E entre gargalhadas soltas e conversas tolas de enamorados, terminámos a primeira e a segunda garrafa em menos de uma hora. No final da primeira garrafa, ainda estava tudo maravilhoso. No final da segunda, também parecia estar. Decidimos que, por agora, estávamos bem tratados ao nível alimentar e que era a altura certa para levantarmos os nossos traseiros e passear pelas ruas de Amarante. O problema surgiu pouco depois de me levantar, quando comecei a notar sérios problemas ao nível da coordenação motora. Andar direita começou a ser uma tarefa pavorosa. Quando percebi o que estava a acontecer, comecei a beber água sem destino, mas agora o mal já estava feito e de nada me adiantou. Pedi que nos sentássemos um bocadinho e aí foi o fim da picada, a minha cabeça parecia um autêntico carrossel.

Não obstante este incidente, continuei a insistir em alugar e pedalar num dos barcos que percorrem o Tâmega. O Valter, cheio de paciência, lá me demoveu desta estupenda ideia. Garantiu-me que íamos a casa só um bocadinho. Mais tarde voltaríamos a sair, assim acreditei. Deitou-me no sofá e afagou-me a cabeça, tranquilizando-me face às fulminantes preocupações que me surgiam neste estado. O medo de morrer. Ele disse que dormir um bocadinho me ia fazer bem, garantiu-me que não iria morrer. E era tudo o que precisava de ouvir. Ainda me levantei para vomitar na casa de banho e ele lá foi atrás para me segurar no cabelo. Voltei para o sofá. Ele levou-me até à cama e já só acordei de madrugada.

Esta não foi nem de perto, nem de longe a noite favorita da minha vida. Mas em 24 anos de vida e sem nunca ter apanhado uma bebedeira, alguma vez teria de ser. E é melhor que tenha sido em Amarante, com vinho verde tinto, e com um namorado como o Valter para cuidar de mim e me assegurar que não iria morrer. Porque o amor não é sempre divertido e uma montanha russa de emoções, o amor é calmaria e conforto. O amor não é feito de pequenos-almoços na cama e fotos bonitinhas para o instagram, o amor é na saúde e na doença, na sobriedade e na bebedeira.

Um fim-de-semana romântico em Amarante, Portugal

Amarante, Portugal

Se já nos acompanhas há algum tempo, então já sabes que gostamos de viajar e de fornecer informação pertinente sobre o que fazer, onde ficar alojado, onde comer. Mas, por vezes, também nos cansamos tanto de ler, como de escrever só listas do que ver e fazer. Foi assim que surgiu este texto e gostaríamos de saber a tua opinião. Gostarias que publicássemos mais textos deste género, mais pessoais e com mais narrativa, ao invés de artigos meramente informativos? 

Visitar um lugar, para nós, é muito mais do que entrar em todas as igrejas, visitar todos os museus e monumentos. É bom saber o que há para visitar, mas também não há nada de errado em visitar um lugar de forma despretensiosa. Visitar um lugar e apenas senti-lo, sem andar numa correria para tudo ver e fazer.  Acordar e sair à rua, sem grandes planos.Visitar Amarante também foi deixar para lá os itinerários planeados e, simplesmente, desfrutar porque as viagens, tal como a vida, não necessitam de ser planeadas ao milímetro. E, muitas vezes, são melhores quando deixadas levar ao sabor do vento.

Um fim-de-semana romântico em Amarante, Portugal

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