Como é viajar sozinha?

Como é viajar sozinha?

Como é viajar sozinha? É seguro? Não é aborrecido? Viajar sozinha é um tópico que desperta alguma curiosidade. Quando o fiz, recebi inúmeras perguntas sobre como tinha sido. Achei então que estava na altura de partilhar a minha experiência. Espero que este texto ajude quem possa ter vontade de o fazer, mas que ainda esteja algo reticente.

Viajar sozinha é perigoso? Deixar-te-ei  decidir por ti. Este artigo será uma amálgama das minhas histórias de viagem.

No dia 18 de Julho de 2014, parti rumo a Londres naquela que viria a ser a minha primeira viagem sozinha em solo internacional.  Tinha 19 anos e as minhas veias pulsavam de excitação por saber que dentro em breve estaria a aterrar em lugares com os quais apenas tinha sonhado. Londres seria a primeira paragem, onde apanharia um voo até Sibiu, na Roménia. E, a partir daí, até ao voo de regresso, todas as deslocações seriam feitas por terra, Brasov, Bucareste, Istambul e Sofia seria o restante itinerário para os escassos 21 dias de viagem que se seguiriam.  Em Sofia apanharia o avião de regresso para Portugal.

Nota: Na altura da minha primeira viagem, tinha apenas uma máquina fotográfica digital e básica comigo, não percebia nada de editar fotos e a ideia de criar este blogue ainda nem existia. Ao contrário dos outros artigos que podem encontrar no nosso blogue onde nos esforçamos para vos apresentar fotos com qualidade dos sítios por onde passamos, as fotos que irão encontrar neste texto estão mais fraquinhas e com menos qualidade do que o habitual.

Os lugares que escolhi visitar:

 4 Dias em Londres

Para alguém que estava ainda a apalpar terreno em matéria de viagens internacionais, ter escolhido Londres como ponto de partida foi, provavelmente, a melhor decisão que podia ter tomado. Londres recebeu-me com simpatia e com uma generosidade que não esperava. Cheguei ao aeroporto de Stansted à tarde. Sem grande dificuldade encontrei um autocarro que me levou até ao centro da cidade. Saí do autocarro, ainda em êxtase por estar, finalmente, a ver os vermelhos autocarros tão característicos, e toda aquela agitação londrina. Já precavida com um mapa, comecei a tentar descobrir o caminho para o hostel onde iria pernoitar.

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Distrito de Shoreditch, Londres (2014)

Com o meu ar de viajante perdida e com uma grande mochila às costas, nem tive de me esforçar para pedir indicações. O sorridente senhor que varria as ruas prontamente me cumprimentou e ofereceu-se para me mostrar no mapa onde estávamos e para onde deveria seguir. Já mais há frente, voltei a parar para analisar o mapa e perceber se estaria no caminho certo. Novamente, sem ter de abrir a boca, surge outra alma bondosa que me pergunta se preciso de ajuda. Mostro o mapa e digo o nome da rua que pretendia. Indicou-me por onde devia seguir. Fui sorrindo no caminho até ao hostel por ter encontrado, nos meus primeiros instantes de viagem, pessoas tão simpáticas e prestáveis.

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Almoço Londres 2014

Londres é uma cidade cara? Não tem de ser! Como? Fica num hostel central com pequeno-almoço incluído, come sempre comida de rua, poupa nos transportes públicos e explora a cidade a pé, mesmo quando te dizem que é longe demais, tira proveito dos incríveis museus que Londres tem e onde não se paga nicles batatóides para entrar.

A minha maior despesa em Londres?  Livros em segunda mão. Quando visitei Camden Town, perdi-me de amores por uma livraria chamada “Black Gull Books” e comprei cinco livros. Um dos que mais me chamou a atenção e que não resisti a comprar foi “The Fear of Freedom” de Erich Fromm. Foi a leitura de viagem escolhida para me fazer companhia nas horas vagas. Era um livro cujo título me dizia muito, sentia-me rebelde e em busca da liberdade.

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Londres 2014

9 Dias na Roménia

Sibiu , Brasov & Bucareste

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Sibiu, Roménia 2014

#1 Sibiu

Aterrei em Sibiu já de noite. Apanhei um táxi que me levou do aeroporto até ao hostel, no centro da cidade. Entrei no táxi, mostrei a morada que pretendia e sentei-me no banco de trás. Na minha tentativa de iniciar uma conversa fiz algumas perguntas ao taxista sobre o seu trabalho e a vida na Roménia. Não obtive resposta.

Momentos mais tarde, o taxista faz uma chamada e fala apenas em romeno. Como alguém que acabara de aterrar num país novo e sentar-se no táxi de um estranho, fico momentaneamente assustada por não estar a perceber nada desta conversa. Uns minutos depois, o taxista passa-me o seu telemóvel. Respiro de alívio e sorriu pelos meus pensamentos desconfiados anteriores. Afinal, o taxista apenas não tinha conseguido perceber o que eu lhe havia perguntado e decidiu ligar à sua filha para ser nossa tradutora.

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Castelo de Peleş, Roménia 2014

#2 Brasov

Cheguei cansada a Brasov. Não consegui pregar olho na noite anterior e tive de apanhar o comboio das seis da manhã em Sibiu para aqui chegar. A noite passada tinha sido um reboliço no hostel. Cheguei ao meu quarto, cumprimentei a pessoa que acabara de fazer check-in e que iria ficar no mesmo quarto de 8 camas que o meu.  Lavo os dentes e tento adormecer. Ainda nem uma hora se tinha passado e já estava a ser acordada em sobressalto por um grupo de alemães que me começa a fazer perguntas em inglês. Acabada de acordar, olho para eles com muito sono e com um ar confuso, de quem não percebe toda aquela agitação. O meu cérebro acabou de acordar e ainda não está pronto para começar a pensar em inglês. Segundos mais tarde, a minha massa cinzenta já está um bocadinho mais capacitada e por fim começo a compreender o motivo daquela algazarra nocturna. O hospede nocturno que eu tinha cumprimentado há uma hora atrás, tinha-se registado no hostel apenas para roubar alguns pertences, os afectados foram estes três simpáticos alemães.

Pintar as viagens, sozinhas ou acompanhadas, apenas com os bons momentos seria fugir à realidade da experiência. Pequenos furtos, ladrões de carteiras e muitos outros pequenos delitos podem, de facto, acontecer em viagem, ninguém está livre deles. A boa notícia é que, apesar de frequentes, as pessoas que os praticam aproveitam-se da ingenuidade e descontracção dos turistas e, embora seja muito chato ter a carteira com o nosso dinheiro roubada, como já me aconteceu, raramente, envolve um risco físico.

Depois de uma noite em claro como esta chego a Brasov demasiado cedo para poder fazer check-in. Deixo a mochila no hostel e, para começar bem o dia, decido fazer uma caminhada pelas verdes montanhas que abraçam a cidade de Brasov.

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Caminhada em Brasov, 2014

Durante o percurso de volta à cidade, dou por mim perdida no trilho e ensopada pela chuva que caía com todo o fulgor das furiosas nuvens cinzentas. Cheguei ao hostel já de tarde. E, se desde as chuvas Londrinas o constipado já andava a rondar, depois de ficar que nem um pinto no meu primeiro dia em Brasov, o constipado chegou em força. Tomei dois comprimidos para o constipado e senti que precisava de descansar um pouco. Deitei-me  e já só acordei à noite. Quando voltei a abrir os olhos, conheci dois ingleses que também estavam a caminho de Istambul. Voltaria a encontrá-los mais tarde, em Istambul.

No dia seguinte,  acordei cedo, apanhei um autocarro para Bran e fiz a típica viagem ao seu castelo, que é mundialmente conhecido como o Castelo do Drácula. No caminho para lá chegar lembrei-me das recomendações de uns viajantes que conhecera uns dias antes. “Não te esqueças de visitar Sinaia e, principalmente, o Castelo de Peleş”.

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Castelo de Peleş, Roménia 2014

Comecei a arquitectar na minha cabeça qual a forma mais fácil para conseguir visitar os dois castelos no mesmo dia. Regressei do castelo de Bran, já a magicar na melhor forma de chegar até Sinaia. Decidi perguntar ao senhor que se sentava ao meu lado se ele me sabia ajudar com esta questão. Era cozinheiro, já tinha trabalhado no estrangeiro, mas decidira regressar à sua pátria. Não só me ajudou a descobrir a melhor forma de ir até Sinaia, como me adoptou por umas horas e só descansou quando me viu a embarcar no comboio certo. É por momentos assim, que viajar é uma experiência tão gratificante para aqueles que gostam de acreditar na intrínseca bondade dos nossos conterrâneos humanos, habitantes todos da mesma casa que é este planeta azul.

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Bucareste, Roménia 2014

#3 Bucareste

Bucareste pode não ser uma das mais belas capitais europeias. O seu aspecto um pouco rude e degradado afastam-na da mira de muitos turistas, mas o seu lado mais alternativo e os seus agradáveis parques cativam outros tantos curiosos.

Cheguei à capital romena com um forte sol a raiar sobre as cabeças de todos nós, apanhei um táxi e deixei a minha pesada mochila no hostel. Peguei num mapa e parti em busca de arte urbana e de um parque para ler o meu livro. Durante a tarde, o dia ensolarado começou a metamorfosear-se. E, subitamente, chuva. Mas não uma chuva miudinha. Teve logo de ser uma chuva abrupta, pesada, violenta. E não só chuva, mas também  ventos e rajadas capazes de fazer os meus sessenta quilos de massa corporal terem alguma dificuldade em fazer frente ao vento. Já de impermeável vermelho e encharcada que nem um pinto, finalmente encontrei abrigo num prédio e ali fiquei à espera que escampasse.

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Bucareste, Roménia 2014

As escuras nuvens começavam a ficar cada vez mais negras e a noite começava a aproximar-se e eu sem fazer a mais pálida ideia de onde me encontrava. Achei melhor pegar no meu mapa encharcado e tentar pedir indicações de como voltar ao centro, onde o meu hostel se encontrava e donde eu já me havia afastado tanto. Decido então abordar a primeira pessoa que passa por mim.

Um rapaz romeno que aparenta ter a mesma idade que a minha. Falo em inglês e ele não compreende uma palavra do que digo. Por sorte, apesar de não falar inglês, falava espanhol e se eu falasse devagarinho português conseguíamo-nos entender. Estava à pressa este rapaz, mas nem assim deixou a sua boa vontade em ajudar-me de lado. Em vez disso, fez-me um convite. Não um convite qualquer. Um convite daqueles  raros e memoráveis, daqueles que só acontecem em viagem. Convidou-me para ir com ele à missa, que era para onde ele estava a ir, e comprometeu-se a ajudar-me depois a encontrar o hostel. Poderia eu recusar tão amável e ingénuo convite? Prontamente disse que sim. Na pequena igreja fui apresentada a todos, que me receberam com sorrisos. Fiz também outra nova amiga. Apesar de não ser uma pessoa religiosa, acho bonito quando as pessoas conseguem encontrar na religião a força para superar as adversidades e agruras da da vida. Nenhum destes dois jovens  teve uma vida fácil, mas encontraram na religião e na apalavra do Senhor a força que precisavam para trilhar o caminho do bem e serem melhores pessoas. Por fim, o meu novo amigo, tal como prometido, ajudou-me a encontrar  o hostel.

 

3 Dias na Bulgária

De acordo com o meus planos iniciais, apanharia o voo para Portugal em Sofia e aproveitaria para ficar uns dias na cidade e conhecê-la.  O que não chegou a acontecer. Embora tenha apanhado o voo de regresso para Portugal em Sofia tal como havia planeado já não tive tempo de conhecer a cidade. Mas fiquei a conhecer outra cidade cujo nome ainda nunca ouvira, Varna.

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Varna, Bulgária

Era suposto apanhar o comboio directamente de Bucareste para Istambul, mas fui informada que o trajecto não era directo e mesmo apanhando o comboio, uma parte seria sempre feita de autocarro. Decidi então fazer o trajecto todo de autocarro. E, Varna, a terceira maior cidade da Bulgária, surgiu assim como o destino ideal para fazer uma paragem a caminho de Istambul.  O autocarro com rumo a Varna deixou Bucareste de madrugada e alcançou Varna a meio da manhã.

Varna é uma cidade costeira, perfeita para os amantes de praia. No entanto, o que mais me deixou saudades foram as suas deliciosas saladas a preços incríveis. Por norma, eu não sou uma grande fã de saladas, mas estas eram de comer e chorar por mais.

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Saladas em Varna, Bulgária

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Outra deliciosa comida, Varna 2014

5 Dias em Istambul

Quando o autocarro deixou a cidade de Varna, às nove da noite, eu já tinha a certeza que não me importaria que esta viagem se prolonga-se por todo o verão. Ainda que não fosse possível porque os meus fundos monetários eram limitados e também porque tinha uma mãe extremamente preocupada em casa, à minha espera. Mas naquele momento, naquela noite sem dormir, entre controlos de fronteira, e breves dormitações senti que continuaria, sem qualquer dificuldade emocional, a viajar sozinha até onde o vento e os transportes públicos me levassem. Sentido a brisa da liberdade, que facilmente se poderia confundir com cheiro a estranhos e o do café gratuito oferecido no autocarro, senti-me genuinamente  feliz.

Engraçado como os medos que sentira antes de partir se haviam dissipado por completo, dando agora lugar a uma calmaria e tranquilidade na alma. Aquela tranquilidade foi apenas perturbada pela senhora, que mais tarde, veio pedir os passaportes. Antes de partir havia-me  informado e sabia que não necessitava de passaporte para os países que pretendia visitar, entreguei portanto o meu cartão de cidadão. A senhora recebeu-o com um franzir de nariz e pediu-me o passaporte, disse-lhe a verdade, que não tinha um. Ela não ficou satisfeita, mas lá levou o meu cartão de cidadão juntamente com todos os passaportes. Na fronteira saímos, mostrámos os vistos e a bagagem e seguimos viagem até, finalmente, entrarmos em Istambul.

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Bilhete de autocarro Varna – Istambul

Chegámos à estação de autocarros de Istambul de madrugada, o meu coração saltava no peito, mal contendo a emoção, o pobrezinho mal conseguia acreditar que estava a bater numa cidade como Istambul. Entrei em Istambul a sorrir, doida de alegria. Assim que avistei um multibanco fui levantar as minhas primeiras liras turcas. O meu coração feliz e galopante, teve uma paragem momentânea quando premi o botão para levantar uma determinada quantia, mas o dinheiro não saiu. A informação apareceu em turco e não consegui perceber porque não me foi dado o dinheiro. Sem saber muito bem o que fazer, receosa que isto fosse algum tipo de esquema para me tirarem dinheiro, decidi pedir ajudar a uns turcos que tinham uma loja perto do multibanco. Prontamente me ajudaram e consegui tirar dinheiro. Estava então pronta para apanhar o transporte público e seguir a lista de passos, que tinha na minha folha, de como chegar ao hostel.

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Pequeno-almoço saudável em Istambul, 2014

Ficaria apenas 3 dias em Istambul, mas esta cidade rapidamente se apoderou do meu coração e fez-me estender a minha estadia tanto quanto possível, acabei por ficar 5 dias. E mais dias ficaria não tivesse eu de regressar a Sofia para apanhar o voo para Portugal.

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Andei pelas movimentadas ruas de Istambul à noite sem nunca ter razões para ter medo, mas a verdade é que estaria a mentir se não vos dissesse que nas primeiras horas que passei nesta cidade, depois do êxtase e da excitação por estar em Istambul passarem, fiquei um bocadinho apreensiva e até questionei se ter vindo para esta cidade sozinha teria sido uma boa ideia. Primeiro por ser rapariga e por estar sozinha, segundo por Istambul ser uma cidade muito turística e ser comum abordarem as pessoas para vender coisas, o que me tornou num bom  alvo para abordagens de rua. Nunca foram abordagens grosseiras, ou que me deixassem intimidada, muitas delas eram abordagens provenientes da curiosidade ou da vontade de fazer negócio. Mas eu, que como viajante e como pessoa, gosto de passar desapercebida, o que estranhei mais terá sido, talvez, o excesso de atenção.

Ainda que um bocadinho embaraçoso e constrangedor, no momento, não posso negar que ir a um restaurante e ter o seu dono a sentar-se ao nosso lado, fazendo perguntas, pedidos de casamento e tirando fotos juntos, chamando toda a atenção das restantes pessoas que desfrutavam da sua tranquila refeição para mim, como se eu que não passava de uma turista constipada e de olhos inchados, fosse algum supra-sumo da beleza ou alguma celebridade internacional, até teve graça.

Rapidamente percebi que o mais importante para conseguir desfrutar em pleno dos meus dias em Istambul,  era sentir-me confortável e por isso deixei de de andar a sorrir feita tola para toda a gente e a ignorar mesmo que falassem comigo. Esta simples mudança de atitude, fez-me sentir de novo confiante para explorar todos os encantos e recantos de Istambul. E, hoje, Istambul, seria um dos lugares onde voltaria, sem hesitar, sozinha. Foi um dos lugares que mais gostei, mas talvez por me ter isolado demasiado na minha bolha de conforto tenha perdido algumas boas oportunidades de fazer  novos amigos.

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Istambul, 2014

Viajar sozinha, Pais & Independência financeira

Como muitos outros estudantes do nosso país, aos 19 anos ainda era financeiramente dependente dos meus pais. Pelo que para amealhar dinheiro para esta viagem passei a cortar no transporte público, caminhando todos os dias, fizesse chuva ou sol cerca de 3 km para ir e voltar da faculdade, alimentando-me de iguarias como arroz com peixe cozido, grão com atum, feijão com cogumelos, sopas e bifes, e mais sopas e omeletes. Tentando manter um equilíbrio entre ser minimamente saudável e manter-me dentro do meu apertado orçamento de sobrevivência.

Com a dependência financeira dos progenitores surge então a questão: “Agora que finalmente consegui juntar dinheiro, como é que consigo convencer os meus pais a deixarem-me viajar sozinha/o”? Essa será, sem dúvida, a parte mais difícil do processo, caro/a jovem. Embora, tendo atingindo a maioridade, se ainda dependemos financeiramente dos nossos pais, é essencial não sermos mal agradecidos e tentar obter o seu consentimento para este tipo de coisas. No entanto, esperar que um pai ou uma mãe concorde a 100% com a ideia do seu bébé viajar sozinho é uma loucura. Tenhas 18 ou 50, sejas financeiramente dependente deles ou já tenhas construído um império monetário, é muito provável que os teus pais nunca venham a achar grande piada à ideia de viajares sozinho/a. Viajar sozinho para os teus pais representará sempre um infindável mar de preocupações e noites em branco. Felizmente, hoje, tenho a sorte de já ter concluído o meu curso e já estar estar a trabalhar. Depois de muitos anos a sonhar com ela, finalmente, alcancei a tão almejada independência financeira. Porém, isso não significa que  a minha mãe ficará mais tranquila no dia em que voltar a viajar sozinha.

Como filha exemplar que tinha sido até ao dia em que decidi que queria viajar sozinha, custou-me deixar os meus pais assim tão preocupados por querer viajar sozinha. Mas poderemos suprimir os nossos desejos eternamente e a nossa sede de mundo em prole da tranquilidade mental dos nossos  pais? Poder, até podemos, mas teremos certamente uma vida extremamente aborrecida se nunca ousarmos fazer aquilo com que sempre sonhámos.

É seguro?

Em 2016, voltei  a viajar sozinha para a Bósnia e Sérvia. Passei uma semana nas capitais destes países. Infelizmente, em Sarajevo tive a minha primeira experiência desagradável. Um grupo de miúdas bem mais novas do que eu, sem eu me aperceber no momento, abriram-me a mochila e roubaram-me a carteira onde tinha o dinheiro. Desde então, optei por andar sempre com um cadeado na minha mochila.

Como é viajar sozinha?

Sarajevo, 2016

Se esta é a tua primeira viagem é normal sentires medo. O medo permite-nos manter-nos seguros, é o nosso instinto natural que nos protege.  Cabe-nos a nós decidir se apesar de termos medo vamos ou não deixar que ele nos defina e nos limite, confinando-nos à nossa bolha de segurança que é tão frágil como tudo na vida.

Prometem não gozar comigo? Eu vou confessar-vos então que embora estivesse avassaladoramente emocionada com esta viagem, havia também uma pontinha de medo que espreitava nas noites e nos dias prévios à partida. Eu nunca tinha estado assim tão longe de casa, ainda para mais sozinha. E sabem qual o meu maior medo? O de não voltar, de morrer. Podem fazer pouco de mim e dos meus medos ridículos, até parece que estava a preparar-me para alguma viagem ao Afeganistão, quando afinal ia só até ali, à fronteira entre a Europa e Ásia. Mas medos todos temos e, sim, muitos deles são irracionais. O medo faz parte de nós, não precisamos de ter vergonha de ter medo. Só não podemos dar a esse medo mais terreno fértil para crescer, não nos podemos permitir que o medo leve a melhor e que não nos deixe conhecer outras gentes e fazer amizades improváveis, que jamais faríamos se deixássemos o medo nos comandar.

É importante fazer um estudo prévio da segurança do país para onde queres viajar, mas viajar sozinha para outros países não é necessariamente mais perigoso do que andares sozinha na tua cidade/no teu país. Andar no teu país, no local onde tu cresceste e conheces a língua será certamente mais confortável, menos intimidador. No entanto, não significa que será mais seguro. Até porque em qualquer lugar do mundo que vivamos basta abrir um simples jornal de notícias para até ficarmos com medo de sairmos à rua no nosso próprio país.

Como é viajar sozinha?

Já viajaste sozinha ou estás a planear fazê-lo? Partilha a tua experiência comigo nos comentários. Se tiveres alguma dúvida ou algo que gostarias de perguntar, não hesites em mandar-me um email ou comentar este artigo que eu responderei com todo o gosto.

Lara Oliveira

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